Social Icons

Pages

Mostrando postagens com marcador Epistemologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Epistemologia. Mostrar todas as postagens

O conceito de Surpresa em Lógica e em Filosofia e a Estrutura Generalizada da Teoria da Informação

.

Seminários CLE

16hs - 24/03/2010 - Sala de Seminários (CLE - UNICAMP)

Por Samir Gorsky

Alguns filósofos defendem que a admiração é o princípio da filosofia. Platão vai um pouco além e chega a afirmar que a admiração é o seu único princípio. "Essa emoção, essa admiração é própria do filósofo; nem tem a filosofia outro princípio além desse; e quem afirmou que Íris é filha de Taumas não errou na genealogia" (PLATÃO, Teeteto, 11, 155 d). Aristóteles concorda com seu mestre. "Devido à admiração os homens começaram a filosofar e ainda agora filosofam: de início começaram a admirar as coisas que mais facilmente sucitavam dúvidas, depois continuaram pouco a pouco a duvidar até das coisas maiores, como por exemplo, das modificações da lua e do que se refere ao sol, às estrelas e à geração do universo. Aquele que duvida e admira sabe que ignora; por isso, o filósofo é também amante do mito, pois o mito consiste em coisas admiráveis." (ARISTÓTELES, Metafísica, I, 2, 982 b 12 ss.). Alguns autores relacionam a surpresa a um tipo de ignorância em uma determinada situação (RUSSELL, 1945 p. 822). Nesse sentido, a surpresa é uma noção epistêmica. Em termos estruturais, pode-se dizer que a surpresa depende da forma como o mundo é supostamente organizado. Ordem e desordem são elementos que comumente são usados para se definir informação, conhecido e desconhecido em um certo sentido. Todavia, não é possível fazer uma abordagem adequada do conceito de surpresa sem levarmos em conta mais um elemento: o inesperado. O conceito de inesperado não pode ser definido apenas a partir do conceito de ignorado. A surpresa serve contudo para nos informar algo sobre o desconhecido.

REFERÊNCIAS

Aristotle. Metaphysics. Oxford University Press, New York, 1993.

L. Floridi. The blackwell Guide to computing and information. Blackwell Publishing Ltd.
Oxford Uk 2004

J. Hintikka On semantic information. In J. Hintikka e P. Suppes, editores, Information
and Inference, D. Reidel Publishing Company, Dordrecht, Holland, 1970.

D. Mundici. Algebras of Ulam's games with lies, In: Proceedings International Congress of the Italian Society for Logic and Philosophy of Science, SILFS , vol. 2, CLUEB, Bologna, 1991, pp. 151-162.

D. Mundici. The logic of Ulam's game with lies, In: Knowledge, Belief and Strategic Interaction , Cambridge Studies in Probability, Induction, and Decision Theory, 1992, pp. 275-284.

Plato. Theaetetus. Focus Philosophical Library. 2004

B. Russell. A history of western philosophy : and its connection with political and social circunstances from the earliest times to the present day. Simon and Schuster, New York, 1945.

Site Pessoal

Abdução

.

Por Samir Gorsky

INTROCUÇÃO

Abdução pode ser definido como um tipo de raciocínio ou inferência pela melhor explicação. Neste caso, busca-se a hipótese que melhor se encaixa na argumentação e não uma conclusão do raciocínio que seja válida. Charles S. Peirce é a principal referência para a definição original deste conceito. Sua meta principal foi estabelecer uma semiótica para o pensamento e a linguagem (cf. [PEI] e [ALI]) e a questão central de sua pesquisa filosófica foi: como estabelecer uma estrutura lógica que pudesse explicar a possibilidade de raciocínios sintéticos a priori? Bastante influenciado pela filosofia kantiana, Peirce retendeu extender suas categorias e assim adequar e generalizar a lógica.

"According to Kant, the central question of philosophy is `How are synthetical judgements a priori possible?' But antecedently to this comes the question how synthetical judgements in general, and still more generally, how synthetical reasoning is possible at all. When the answer to the general problem has been obtained, the particular one will be comparatively simple. This is the lock upon the door of philosophy." (CP, 5.348, quoted in Hookway (1992), page 18).



Referências

[ALI] ALISEDA, Atocha. Abduction as epistemic change: Charles S.Peirce and epistemic theories in artificial intelligence (em http://user.uni-frankfurt.de/~wirth/texte/tt.htm)

[PEI] PEIRCE, C.S.(1931-1958) Collected Papers (CP), vols 1-8, C. Hartshorne, P. Weiss and A.W. Burks (eds). Cambridge, MA: Harvard University Press.

Site Pessoal

INFORMAÇÃO SEMÂNTICA

.


Samir Gorsky

O uso do termo infomação está frequentemente ligado ao estudo do fenômeno da comunicação. Neste contexto há um forte interesse em sistematizar o que pode ser denominado conteúdo semântico objetivo dfa comunicação. Estes conteúdos podem possuir tamanhos, formas, e valores diversos e é considerado uma referência para a compreensão
do termo informação.

A codificação e a trasmissão de informações também pode ter diferentes tipos de implementação fisicas, porém pode-se argumentar que a existência da informação independe de sua codificação ou transmissão. Por exemplo, o dicionário de filosofia da Cambridge Press define informação da seguinte forma:

"an objective (mind independent) entity. It can be generated or carried by messages (words, sentences)or by other products of cognizers (interpreters) Information can be encoded and transmitted, but theinformation would exist independently of its encoding or transmission."

Informações são constituídas de data. Segundo Floridi (Floridi 1999), os data \delta podem
ser de quatro tipos:

\delta1: Os data primários. São os principais data arquivados em um banco de dados. Normalmente, são sequências núméricas.

\delta2: Os metadata. São propriedades dos data primários que descrevem certas indicações tais como localização, formato, atualização, disponibilidade.

\delta3: Os data operacionais. Estes se referem ao uso dos data, à operações em todo o sistema de data e à sua performace.

\delta4: Os data derivados. Estes data podem ser extraídos dos data \delta1 e \delta3, principalmente quando este último tipo é usado como fonte em pesquisas de padrões, provas ou inferências de evidências. Em geral também podem ser usados em análises comparativas e quantitavivas.

A DGI indica que não pode existir informação sem data, porém isto não mostra que tipos de data \delta são necessários para constituir a informação. Suponha que ao se consultar um banco de dados ou ao se fazer uma pergunta constatou-se a ausência de respostas ou do retorno da pesquisa. Neste caso há duas possibilidades: houve uma falha na busca dos data, e assim, nenhuma informação específica \sigma estará disponível, ou algum data delta pode ser providenciado com o objetivo de mostrar que o processo entrou em um loop. Do mesmo modo, o silêncio a uma resposta pode indicar tanto uma assentimento quanto uma negação. Pode-se ainda derivar disto uma informação não-primária \mi do tipo "a pessoa não escutou a pergunta". Esta "neutralidade tipológica" (NeuTi) é justificada pelo seguinte fato: quando uma aparente ausência de data não pode ser reduzida a uma
ocorrência de data negativos primários, o que se torna disponível como informação é alguma informação não primária \mi adicional sobre \sigma consituído por alguns data não primários dos tipos \delta2 e \delta4.


Referência

FLORIDI, Luciano. The blackwell Guide to computing and information. Blackwell Publishing Ltd. Oxford Uk 2004

Site Pessoal

Teorias da verdade

Por Samir Gorsky (baseado em DANCY, Jonanthan e ROSA, Ernest (orgs.). A companion to epistemology. Blackwell Companions to Philosophy.)

1. Introdução

Entender uma sentença é saber em quais circunstâncias ela será considerada verdadeira daí a importância das teorias da verdade para a epistemologia, em lógica um raciocínio é considerado válido quando preserva a verdade contida nas hipóteses, pronunciamentos morais são avaliados a partir de um conceito objetivo de verdade e assim por diante.

A antiga tese que assegura que a verdade seja uma correspondência entre o discurso e a realidade carece de uma articulação satisfatória. Algumas propriedades das crenças verdadeiras são compartilhadas. Crenças verdadeiras devem ser coerentes entre si, úteis (pragmática), verificáveis (em certos contextos).

A partir do século xx houve uma tendência na filosofia de não se considerar a verdade como sendo uma propriedade e sim a forma sintática do predicado.

2. Teorias tradicionais

2.1. Teoria da correspondência (formalizada por Tarski).

A sentença “a neve é branca” é verdadeira sse (se, e somente se) a neve é branca

A primeira ocorrência de “a neve é branca” está entre aspas, pois indica o nome da proposição. A segunda sentença se refere ao fato. A verdade, portanto, é a correspondência entre a linguagem e o fato (Austin, 1950 e Wittgenstein, 1922).

Os problemas referentes à teoria da correspondência são os seguintes: como é possível determinar o que é um fato? Como um fato pode corresponder a uma sentença?

2.1.1. Picture Theory

A picture theory de Wittgenstein é considerada uma boa tentativa de descrever a estrutura desta correspondência. Nesta teoria uma proposição elementar é uma organização de termos; um fato atômico é uma organização de objetos simples; a correspondência é feita entre proposições elementares e fatos atômicos e isso acontece quando suas configurações são idênticas. Neste caso os termos da proposição se referem aos objetos dos fatos e estes estão situados em lugares similares. Os valores de verdade das proposições complexas são funções dos valores de verdade das proposições simples. Todavia, mesmo que estas considerações estivessem totalmente corretas, seria necessário ainda teorias que dessem conta das proposições elementares, das configurações lógicas e da referência e estas teorias não são construtos simples.


2.2. Teorias verificacionistas

2.2.1. Teoria coerentista

Uma das principais características das teorias da verdade é que elas devem sustentar que quando uma sentença preenche adequadamente as suas condições de prova (verificabilidade ou demonstrabilidade), então ela deverá ser considerada verdadeira.

Problemas sobre a maneira correta de ser fazer a correspondência entre a sentença e o fato fazem com que certos teóricos identifiquem a verificabilidade e a verdade (Peirce, 1932). Essa idéia tomou várias formas. Uma delas parte da concepção holística de verificação, isto é, uma crença é justificada (verificada) quando faz parte de um sistema inteiro de crenças coerentes e harmoniosas entre si (Bradley, 1914 e Hempel, 1935). Assim, dizer que uma proposição é verdadeira é o mesmo que dizer que ela pode ser verificada por um procedimento adequado (Dummett, 1978; Putnam, 1981). Em matemática, esta noção identifica a verdade com a provabilidade.

Em resumo, as teorias verificacionistas tratam a verdade do ponto de vista de sua verificação e isto torna esta teoria um tanto mais simples do que a teoria da correspondência. Há, contudo, problemas a serem superados. Primeiramente parece que não há de fato a possibilidade de verificação de uma proposição somente através de sua coerência com as demais. No máximo o que se pode lucrar com tais teorias é a possibilidade de atestar proposições falsas. Uma outra dificuldade que aparece é que não havendo referência a mundo, a teoria acaba por “patinar no vazio”. A simples coerência é eleita como critério de verdade e, portanto, não há dados para se fazerem correspondências.

2.3. Teorias pragmáticas (pragmatism)

A terceira teoria da verdade é conhecida como pragmática (James, 1909; Papineau, 1987). Tal como a teoria verificacionista, a pragmatista leva em conta uma propriedade da verdade como critério último de definição da verdade. Para os pragmatistas a verdade é dada como base para boas ações. A verdade fornece subsídios para que existam certos resultados esperados das ações. Crenças verdadeiras tendem a promover o sucesso de quem as tem.

3. Teorias deflacionárias

As teorias tradicionais reconhecem que o axioma acerca do critério de verdade é insuficiente para a compreensão do conceito. O axioma aqui referido é o tradicional “a neve é branca” é verdadeira sse a neve é branca. Portanto tais teorias (tradicionais) inflacionam de alguma forma o conceito de verdade para darem conta de sua estrutura, e isso acontece, por exemplo, quando é dada a seguinte forma para que uma sentença P seja considerada verdadeira: “P é verdadeira se, e somente se, P tem a propriedade T” (esta propriedade T é portanto uma correspondência com a realidade, ou a sua verificabilidade, ou servir de fundamento para uma ação). Alguma alternativas mais radicais tentam eliminar essas características adicionais da verdade (Ramsey, 1927; Strawson, 1950; Quine, 1990) e por isso recebem a denominação de Teorias deflacionárias da verdade.

Bibliografia 1

DANCY, Jonanthan e ROSA, Ernest (orgs.). A companion to epistemology. Blackwell Companions to Philosophy. Blackwell Publishing Ltd. Oxford, UK e Malden, Massachusetts 02148, USA. 1993

Bibliografia 2

Austin, J.L.: 'Truth', Proceedings of the Aristotelian Society supp. vol. 24 (1950)

Bradley, F.H.: Essays on Truth and Reality (Oxford: Clarendon Press, 1914).

Davidson, D.: Truth and meaning', Synthese 17 (1967),

Davidson, D.: 'True to the facts', Journal of Philosophy 66 (1969),

Davidson, D.: 'Truth and meaning', Synthese 17 (1967),

Davidson, D.: 'The structure and content of truth', Journal of Philosophy 87 (1990),

Dummett, M.: Truth and Other Enigmas (Oxford: Clarendon Press, 1978).

Hempel, C.: 'On the logical positivist's theory of truth', Analysis 2 (1935),

Horwich, P.G.: Truth (Oxford: Blackwell, 1990).

James, W.: The Meaning of Truth (New York: Longmans Green, 1909).

Kripke, S.: 'Outline of a theory of truth', Journal of Philosophy 72 (1975)

Papineau, D.: Reality and Representation (Oxford: Blackwell, 1987)

Peirce, C.S.: Collected Papers vols 24 (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1932).

Putnam, H.: Reason, Truth and History (Cambridge: Cambridge University Press, 1981).

Quine, W.V.: Pursuit of Truth (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1990).

Ramsey, F.: 'Facts and propositions', Proceedings of the Aristotelian Society supp. vol. 7 (1927), 15370.

Strawson, P.: 'Truth', Proceedings of the Aristotelian Society supp. vol. 24 (1950), 12556.

Tarski, A.: 'The semantic conception of truth', Philosophy and Phenomenological Research 4 (1943), 34175.

Wittgenstein, L.: Tractatus Logico-Philosophicus (London: Routledge and Kegan Paul, 1922).

Estruturas intelectuais

por Samir Gorsky

Em sua obra Strutures Intellectuelles, Blanché trata da organização sistemática dos conceitos, principalmente com relação às estruturas proposicionais aristotélicas. Apesar do tema ser constantemente estudado, segundo o autor, seu livro “s'embarque sur une Caravelle où la Logique n'avait encore inscrit aucun passager.” Blanché propõe novas estruturas referentes a estes conceitos. Através de certas generalizações dos esquemas de proposições aristotélicas Blanché tenta mostrar que a oposição de proposições sugere uma oposição de conceitos. Do quadrado de oposições é possível construir um hexagono de proposições levando em conta, além de pares de opostor tríades de opostos que forma triângulos de oposição. Portanto podemos considerar que Blanché defende uma estrutura lógica do intelecto. [tentar encontrar puzzles sobre silogismos]. O trabalho se inicia com a problematização sobre uma estrutura essencial. Depois temos uma generalização e a reestruturação das teorias clássicas sobre os pares e quadrados de oposição. O trabalho ainda trata das proposições modais.

Uma outra obra que trata o mesmo tema, porém do ponto de vista epistemológico e não apenas lógico é The architeture of Reason, de Robert Audi. A obra pretende compreender uma teoria da racionalidade que possa englobar a razão prática e a teórica.

Razão prática e razão teórica

A maioria das obras filosóficas tratam de um destes dois ramos da teoria da razão. Há uma certa assimetria no tratamento destas duas vertentes. A razão teórica é mais estudada quando se trata da epistemologia. A razão prática é do âmbito dos estudos éticos. Para a resolução e produção de desafios deve-se ter em mente ambas vertentes. Os problemas dependem tanto de elementos como desejos, intenções e ações que são do campo da razão prática quanto de outros, como crenças, justificações e verdade. Portanto, assim como Audi, defende-se neste trabalho que, mesmo havendo teorias adequadas sobre a razão pratica ou teórica tomadas separadamente é necessário, para o desenvolvimento de uma tese acerca de problemas lógicos e filosóficos, um discurso que as integre.

““But there is another good reason to seek an epistemological informed conception of practical reason. If there is the degree of parity that I find between theoretical and practical reason, then some of problems – and resolutions – that arise in epistemology may bear on practical rationality. If, for instance, there is such parity between rational belief and rational desire, then relative to skepticism about their status, we can perhaps view the latter as no worse off than the former.” Robert Audi – Preface.

O tratamento de problemas gerais nos leva a crer que estes, para serem compreendidos e solucionados, devam ser racionais em algum sentido. A racionalidade aqui citada tem como característica básica a objetividade, pois o problema ou sua solução deve ser descrita em linguagem pública. Um problema deve ser compreendido como tal independente do agente em questão. Mesmo se a solução já seja conhecida, é preciso compreender que um agente que não tenha conhecimento de sua solução deva tomar a situação como problemática.

Grande parte dos enigmas lógicos não permitem interpretações relativistas acerca de seu entendimento e resolução. A racionalidade nestes casos é praticamente absoluta. Ninguém pode colocar em questão um teorema já provado e compreendido como tal. Nestes casos existe apenas a possibilidade de não compreensão da estrutura lógica. Pode-se dizer que não se entendeu o teorema, mas nunca que o teorema foi provado apenas para alguns seres humanos e não para outros.

Com relação à razão envolvendo problemas há uma objetividade singular. Caso não seja possível se compreender o problema, ou seja, o problema não é entendido como tal por nenhum ser humano, então a palavra problema não tem sentido e não foi bem usada. Isso não significa que o problema seja subjetivo, mas sim que é um construto racional e com uma objetividade característica. O problema não precisa ser problema em ato para todos os seres para que assim se observe a sua objetividade. Ela acontece pelo fato do problema ser possível a todos como tal.

Memória

Seja Pedro um indivíduo brasileiro e que de fato existe. Ele acredita que no passado esteve em uma determinada festa e que se lembra de ter escutado uma determinada música. Esta lembrança está aparentemente situada em sua memória. Ao encontrar com alguns amigos que também estavam nesta festa é o questionado sobre esta música ao que Pedro, através de sua memória, consegue identificá-la e pronunciar o seu nome para seus amigos. De fato, os amigos imediatamente concordam com Pedro e passam a também ter em sua memória a música citada. A crença de pedro que está baseada em sua memória é verdadeira. Isto significa que de fato aconteceu uma festa no passado em que ele estava presente e nesta festa foi tocada a música que ele tem em sua memória e que possui exatamente o nome pronunciado aos seus amigos. Este conjunto de proposições que fazem parte das crenças de pedro, porém não são frutos de descobertas ou resultado de inferencias puramente lógicas e de um ávido raciocínio. Elas foram experiênciadas e de alguma forma guardadas em sua consciência sem grande esforço intelectual por parte do agente.

Para o estudo desta seção levaremos em conta uma definição básica de memória, uma vez que não é objetivo atual fazer uma análise pormenor deste conceito. Assim deve-se levar em conta a sua definição, a análise do ato de memória, a fixação e a conservação das lembranças, a evolução das lembranças, o reconhecimento das lembranças, a importância da memória e seu papel na educação intelectual.

A memória é algo que se refere ao passado. O passado pode ser entendido como algo que não existe. Assim seria equivocado definir a memória como a faculdade de reviver o passado. Também é complicado considerar a memória como a faculdade de conservar e evocar conhecimentos adquiridos uma vez que fazer isto é restringir o seu âmbito. Sentimentos, emoções, intenções e desejos não totalmente conceituais podem igualmente ser evocados pela memória, e portanto a memória é capaz de coprrender um universo mais amplo do que apenas aquele que seja da ordem doconhecido.

Levando em conta o argumento acima definiremos memória como faculdade de conservar e evocar os estados de consciência anteriormente experimentados.

Memória como um dos instrumentos intelectuais para produção e resolução problemas e
enigmas lógicos e filosóficos

A principio levantaremos a seguinte questão: qual o papel da memória para a produção e solução dos problemas e enigmas lógicos e filosóficos? Qual o papel ocupado pela memória nas estruturas destes problemas e enigmas?

Platão sugere que a memória tenha um papel fundamental na resolução de certos problemas como podemos observar em seu diálogo Fédon. Neste texto, um escravo é convidado a resolver uma determinada questão envolvendo quadrados. A princípio o escravo não tem conhecimento da teoria que o ajudaria em sua tarefa. Platão defende que a alma antes de nascer entra em contato com as idéias. Depois do nascimento porém as idéias, tal como a alma presenciou antes do nascimento, são “esquecidas” e durante a vida elas passam a ser lembradas progressivamente. A situação descrita por Platão serve para exemplificar a sua teoria. O escravo não deve descobrir a solução, mas apenas relembrá-la, pois já esteve em contato com ela antes de nascer. Todavia é necessário que ele seja ajudado. É neste ponto que Sócrates assumirá o seu papel sendo uma espécie de professor, ou guia, que através de questões apropriadas poderá conduzir o escrevo à sua lembrança.

Ao contrário do pensamento apresentado na obra de Platão, defenderemos que a memória pode exercer um papel de semelhante ao da criação. relembrar uma estrutura ou conceito pode ser análogo ao ato de criá-lo. Em certas circunstâncias, o esforço para trazer à mente um conceito já esquecido é análogo ao de criar tal conceito. Por exemplo, se tentamos relembrar uma música sem que tenhamos mais acesso a informações básicas como autor, nome e época. Neste caso existem duas possibilidade: ou a música é bem conhecida e por isso não teremos qualquer de lembrar sua melodia uma vez que ela jamais fois esquecida. Nos concentremos porém no caso em que as únicas informações que temos é que esta música existi, já tivemos contato com ela e sabemos disso, atualmente não lembramos de sua melodia ou outro elemento musical ou identificador a ela ligado.

Imaginação e Criatividade

Uma definição básica de imaginação a descreve como a "faculdade de conservar, de reproduzir e de combinar as imagens das coisas sensíveis". (JOLIVET 1970, P. 150)

Desta definição pode-se concluir que o objeto da imaginação é aquilo que foi percebido pelos sentidos.

Pode-se dividir a manifestação da imaginação em dois tipos: imaginação reprodutora e imaginação criadora.

A imaginação repredutora, como o próprio nome indica, capacita os seres a reproduzirem estruturas reais sem haver necessáriamente a presença do objeto reproduzido. Assim imagens são evocadas de modo a simularem em algum nível a presença do objeto imaginado. Todavia, sabe-se que as imagens assim reproduzidas não são perfeitamente idênticas àos objetos reais. A mente modifica as estruturas de modo a produzir imagens apenas semelhantes dos objetos representados.

A princípio, esta espécie de imaginação pode se confundir com a memória. Porém algumas diferenças devem ser levadas em conta. A imaginação tem por referência imagens sensíveis em si e não como experiência do passado do agente em questão. Pode-se imaginar algo que não seja experienciado, mas que continua sendo uma reprodução do real. Por exemplo quando se imagina um objeto junto a outro que nunca tenham sido vistos juntos antes.

Já a imaginação criadora consiste em combinar imagens antigas para com elas formar novos conjuntos.

Ela pode ser espontânea ou inconsciente, como a que se dá nos sonhos ou pode ser ativa e refletida, como a que se dá de modo consciente. como exemplo de imaginação ativa e refletida podemos citar o artista que imagina uma nova obra.

A imaginação criadora usa basicamente três tipos de operação: a assiciação, a dissociação e a combinação.

A associação é uma analogia de características, uma comparação oportuna. Uma das habilidades que caracteriza um grande artista é a sua capacidade de associar elementos da natureza que até então não eram percebidos como inassociáveis. Os grandes nomes da história da literatura demonstraram grande facilidade acerca desta aptidão. Estas "descobertas" geram uma grande admiração e perplexidade do público como acontece por exemplo nos seguintes versos que Vitor hugo escreveu sobre a Lua crescente.

"...E a si mesma Ruth, imóvel, se perguntava,
Entreabrindo o olhar sob seus véus,
Qual deus, qual segador que do verão eterno,
Ao partir, por negligência deixaria,
Esta pequena foice de outro no campo dos céus."

"...Et ruth se demandait.
Immobile, ouvrant l'oeil à moitie sous ses voiles,
Quel Dieu, quel moisonneur de l'éternel été.
Avait, en s'en allant, négligemment jeté
Cette faucille d'or dans le champ des étoiles"

Vitor Hugo, Booz endormi. La Légende des siècles (1859)

A dissociação é a separação das partes que compões um todo. Novamente podemos descrever a figura do gênio que é então capaz de dissociar da melhor maneira as partes para que seus objetivos sejam atingidos. como exemplo podemos citar Isaac Newton que dissociou os elementos que compõe o movimento para então analisá-los apropriadamente.

A combinação

A combinação é uma soma. É juntar os elementos antes dissociados e de origens distintas para formar algo novo. As artes liberais se constituem a partir deste processo da imaginação criadora.

As ciências se beneficiam da criação imaginativa, pois grandes hipóteses ciêntíficas são antes do tudo o fruto de uma construção que imagina o funcionamento da natureza conforme um modelo, segundo um plano antecipado, que a experiência deverá posteriormente confirmar ou invalidar.



Referências

AUDI, Robert. The architecture of reason – the estructure and substance of rationality. Oxford university press. Nova Iorque. 2001

AUDI, Robert. Epistemology - a contemporary introduction to the theory of knowledge. Routledge contemporary introduction to philosophy. Routledge, Londres e Nova Iorque. 1998.

BLANCHÉ, Robert. Strutures Intellectuelles – Essai sur l’organisation systématique des concepts. Librairie philosophique J. Vrin. Paris 1969

JOLIVET, Régis. Curso de filosofia. Trad. Eduardo Prado de Mendonça. Livraria Agir, rio de Janeiro 1970.

Tipos de Conhecimento

Por Samir Gorsky

Existem duas espécies de conhecimento. O processual e o classificatório. O conhecimento processual é caracterizado como resultado do raciocínio e da criatividade. É o entendimento e a criação de processos. O classificatório e baseado na memória e na percepção. É o entendimento orgânico e estático. Esta divisão do conhecimento em duas espécies é abstrata e ideal. Os exemplos reais de cada espécie apresentam apenas um predomínio de um ou de outro tipo. Para exercer a classificação sobre um conjunto de objetos é necessário que o sujeito entenda certos processo. O raciocínio neste caso é o aparato dinâmico. É o conhecimento dinâmico para objetos ou conceitos dinâmicos. A nomeação e organização é da ordem do classificatório. A criatividade também possui características predominantemente dinâmicas. Porém as estruturas gerais do raciocínio e da criatividade podem ser compreendidas a partir da nomeação, classificação e memorização. O desenvolvimento, em termos de conhecimento, ou seja, a aprendizagem se dá de maneira gradual, dialética e do simples para o complexo a partir das duas espécies de conhecimento. As duas espécies conhecimento desempenham importantes papeis na aprendizagem, e portanto, não é possível o conhecimento sem a presença de ambas. O conhecimento classificatório se dá pelo reconhecimento de semelhanças e diferenças entre os objetos. A disposição e escolha dos nomes dos conjuntos de objetos classificados são também produtos da criatividade. A criatividade, por sua vez, é a faculdade que necessita do maior número de faculdades da mente humana. Ela é tão dinâmica quanto a filosofia e a linguagem. O conhecimento processual-classificatório é um conhecimento algorítmico organizado. A criatividade é o processo dual da aprendizagem. Uma pessoa que possui um conhecimento apenas processual é como uma pessoa com transtorno de Asperger que consegue fazer cálculos astronômicos sem saber explicar como estes são feitos.

Site Pessoal
 
Blogger Templates